

“Corre, corre, corre” eu acordei aos berros, de camiseta do John Lennon rasgada e pantufa de panda, no sofá bordô da minha sala de estar miúda. Odeio aquele sofá. A fita arranhada do Duran Duran ecoava por todo a sala que a minha mãe todas ás vezes que ia lá teimava em chamá-la de sala de estar, pra mim era a salinha de teve e videogame. Sentei-me robusta esfregando a testa com meus polegares manchados do ladinho pela tinta da caneta esferográfica azul da Amanda - menininha que quando estava na terceira série usava duas trancinhas tortas - devo ter bebido na noite passada. E muito. Apertei os olhos pra ver se o resto do rímel não borrava de vez. Segui até a cozinha mais miúda ainda - só a Alice com uma boa dose da pequena garrafa com letras garrafais beba-me Madalena, beba-me - pisando forte pra acordar a vizinha barraqueira que dava encima do meu namorado, ex, do piso anterior. Franzi o cenho com toda a força boa que eu ainda tinha presente no meu estomago revirado. Chaleira no fogão. Ainda bem que Duran Duran ainda debulhava seus versos para mim. Não sei se aguentaria. Carrego uma bagagem cheia de aprendizados ofuscados e desamores amados. Afundada numa bagunça tão viril chega a ser difícil pensar positivo. Vivo no desalento das cidades onde a marcha fúnebre se confunde com a minha risada alegre do dia-a-dia, e minhas palavras se alinham na irregularidade dos prédios mais altos e abandonados do centro velho de São Paulo. Sempre gostei de morar na cidade grande, não mais que meu Camaro vermelho, dois filhos, passagens para Londres e seu suéter velho que você pra me alegrar nos dias que meu time perdia no Campeonato Brasileiro - quase nunca - dizia que ele foi feito pelas mãos gordinhas da Sra. Weasley, cidade grande é bom porque é tão grande que você pode sumir. Sumir é bom. Dá uns dias de folga das pessoas, ou dar um dia de folgas pras pessoas de você. Eu sempre fui do tipo anti-social, onde os finais de semana se resumiam em dias-de-ficar-em-casa, ou ir pro curso. Ás vezes eu ainda vou no salão de beleza pra fazer a sobrancelha, no máximo. O bule apitou no fogão soltando fumaça feito uma chaminé. Que barulho engraçado, o apito. Apreciar os barulho sempre fora meu segundo hobby alocinético. O mundo precisa de mais loucos inconsequentes. De mais Johnnys Depps barbudos como doutores em faculdades renomeadas de medicina ou direito. Precisamos de mais errados da história e mais fabulas contadas na British Library. De mais vilões matando o mocinho, ou de donzelas auto-independentes. Depender de homem, não. Precisa-se de alegria. Felicidade propriamente dita em grego antigo, proferida em mil e uma profecias feitas por Apolo. Faça. Faça pensando em você, apenas você, ignore a opinião alheia, critica construtiva só vem da sua mãe ou do espelho. Passe meia hora por dia se olhando no espelho, somente você se conhece como ninguém. Escreva sobre você mesma, quem sabe algum professor de português se esconde por trás desses perfis falsos que rondam a atmosfera virtual, ou o amor da sua vida, interessados em ler, em te ler, em me ler. Sou daqueles romances do século XX, de café forte pra ligar os neurônios e charrete. Sou o sujeito oculto de uma frase no pretérito imperfeito, sopro doce em uma tempestade de areia, o farfalhar do locutor da rádio mais romântica da madrugada, sou as palavras vazias saídas do coração vazio, a gota d’água da boca seca, o acúmulo de defeitos, sou o azul escuro do mais profundo oceano atlântico. Sou a letra mais caótica da fita rebobinada do Duran Duran.” Natália Castro, muitezas.
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As amizades mais fortes, são aquelas que já passaram por várias crises, e mesmo assim, permanecem vivas. {QL}
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Eu nunca consigo fazer nada direito. Conselhos eu não sei dar, não consigo demonstrar nada, sou fria, grossa, sensivel, carente, vulnerável. Meu passado me condena, e alguns erros procuro aprender com eles. Tudo se virou de cabeça pra baixo. Pessoas que eu chamava de amigos, não falam mas nem um oi. E os que eu mais considero já estão cansando de mim. Não tenho animo para nada, ser feliz não está em primeiro lugar, dormir é a melhor opção. Mas e ai? será que vai ser assim pra sempre? eu quero mudar, mas não está sendo fácil. Vontade não é o suficiente, e ninguém me entende. Talvez nunca entenderão, porque é algo que eu sinto que nem mesmo eu sei o que é de verdade. (tioe)
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